quinta-feira, 16 de julho de 2015

Livrai-nos da M, amém

A Mariana ainda não está desfraldada, sim, ela já tem 2 anos e 8 meses, em momento oportuno postarei sobre sua historinha de desfralde, enquanto isso leio e compartilho mais um texto que nessa manhã me fez refletir um pouco sobre as tantas coisas que fazemos no dia a dia com nossas crianças...
coisas que a pediatra sugere, que a amiga da a dica, que a internet explica...
ontem a Mariana fez pela 1ª vez cocô no penico, em janeiro já havia feito outra vez no vaso, mas nada que evoluiu para um desfralde embora tenhamos tentado, mas a "festa" ao redor desse "feito" é que me fez ler esse texto e refletir!!



Faz tempo que o “inconsciente coletivo”, regado a leituras e saladinhas prontas pela mídia começou a tomar posse da ideia de que não se deve forçar os bebezinhos a sentarem-se no penico, nem puni-los, apressar, obrigar ou doutrinar a fazeção do cocô.
Bacana demais não fazer o desfralde precoce, não treinar as criancinhas, como já não se faz nem com macacos em circo, mas ir levando, observando e apenas manter uma postura de ajudante de acordo com as necessidades da criança. Contracultura serve para isso, não? 
Para corrigir o que estava excessivo.
Simples? 
Não, a contracultura tem uns dentões gigantes e erra na mordida sempre ou quase sempre na sua angústia de acertar. 
Simplificar a relação com o cocô das crianças foi virando uma coisa adocicada demais para o sabor M de ser de qualquer M. 
As fezes, corretamente compreendidas pelos estudiosos do comportamento humano como parte integrante do bebê, podem virar objetos de barganha com a mãe e mais do que isso objetos que podem causar medo aos bebês, afinal é parte deles saindo, é assim que eles inicialmente compreendem o processo e podem viajar na maionese. 
Até aí tudo bem, concordamos. 
Agora por que o cocô do bebê precisa virar um sujeito lindo e cheiroso para quem ele dá tchau e para quem a mãe faz festinha?
Quem inventou isso certamente estava tratando uma criança X com um problema Y em relação ao cocô, provavelmente uma criança que prendia o cocô. 
Esse jogo pedagógico não tem sentido algum para uma criança que está descobrindo a relação com sua M numa boa. 
E pelamordavaquinhamimosa, a maioria das crianças, se deixada em paz para curtir a própria cagada vai compreender que aquilo sai, que aquilo não serve para comer, que aquilo fede e que a melhor ideia é jogar fora, com força e com coragem, determinação e sem maiores valorizações. 
Já é um luxo ter uma descarga mágica que manda o cocô para um lugar que a humanidade só agora está a compreender: rios de onde retiramos água para beber. De fato nossa relação com nossa M é de uma ignorância profunda.
As fezes têm relação direta com o dinheiro, todos sabemos, é de rir que a sociedade atual, que antes valorizava a limpeza e o trato para reprimir e esconder a M; agora valoriza-a como sujeito para quem se deve desde pequeno dar tchau e tratar com louvores.
Do apego anterior, que segurava e doutrinava, obrigava a fazer escondido em local determinado, vinculava com sujeiras e facilitava com leitura e distrações oculares; agora temos festerês. 
Não falta muito para inventarem um enfeite de plástico para se cravar no cocô do bebê. 
Qualquer dia os álbuns de fotografias vão surgir com lugar para foto: meu primeiro cocô consciente!
De uma relação de apego escondido, com requintes de perversão que colocava a M , o sexo e o prazer como coisas sujas que deveriam ser escondidas, evoluímos para uma relação de apego valorizado e como se gosta de proferir nos tempos modernos, usando uma palavra moderna: trabalhado.
Agora temos o cocô trabalhado! 
Antes mesmo de observar como aquela criança lida com o seu cocô, como ela decide sua relação de apego e desapego, as mamães mais que perfeitas piram em como deve ser trabalhada a relação da criança com sua própria M.
Que pena ter que desvalorizar, mas um cocô é apenas um cocô.
 Faz parte da natureza humana primária lidar com isso, sempre lidamos. Mal na sociedade judaico-cristã e mal agora na contracultura e na hipervalorização de algo que cedo, por volta dos dois anos de idade para a maioria das crianças, é feito com simplicidade se as mães ou pessoas que cuidam dos bebês apenas os deixarem em paz para decidir o que devem fazer com aquilo que sim pertence a eles e que sim eles devem dar cabo da situação.
Vejamos na prática pessoal dessa que vos fala: tive três filhos que lidaram livremente com seus cocôs. Um deles ao observar o cão fazendo cocô no pátio e o que o pai fazia com as fezes do cão, resolveu imitar.
 O garoto fazia suas necessidades no mesmo local do cão, no pátio, depois buscava a pazinha para enterrá-lo. 
Ficava se achando muito esperto e era mesmo.
 Talvez fosse engraçado aos olhos dos adultos, mas foi assim até que ele decidiu imitar os pais e passar ao vaso sanitário. 
E aí obviamente se achou ainda mais e maior, mais dono da sua própria M. O outro bebê escolheu o ralo do banheiro e depois passou a entender para que servia o vaso. 
Rumou feliz, orgulhando-se do feito. 
O terceiro bebê recusou-se a outro local desde cedo e apontou o vaso como preferência, não aceitou redutor infantil, pondo-se chorar quando instalamos o objeto especial para crianças, mas como sentia medo de cair, exigiu um adulto por perto para fazer suas necessidades, até o dia em que bateu a porta na cara da mãe e encerrou-se sozinho, orgulhando-se inclusive de dar a descarga. Pronto e fim, cocô é assim, algo que sai dos bebês, que em algum momento do desenvolvimento torna-se atitude voluntária, coincide com o tempo em que as crianças sobem e descem escadas sem apoio, coincide com o tempo em que se orgulham de suas cagadas e tornam-se mais autônomas. 
Uma pena que as mamães e cuidadoras de escolinhas estejam sempre de olho, não para observar e atender o que vem de demanda, de acordo com a loucura e viagem única de cada filhote humano, mas para controlar de um jeito bonitinho de maneira a caber no formato adulto de ser.
Temos a ideia de que a criança, qualquer criança, todas as crianças, vão desenvolver problemas com o cocô, é uma desconfiança da inteligência infantil. 
A criança não é um animal que não observa outros animais, outros humanos de sua família. 
Ela é a priori capaz de lidar com a própria M, porque todos somos, sempre fomos, apesar de tantos olhares e práticas enxeridas dos adultos nas nossas intimidades.
Não treinar, não fazer, não interferir, apenas observar, cuidar e amar da fecundação à maioridade é o que funciona melhor.
E como dizem os atores de teatro para desejar boa sorte e sucesso: MERDA!
 
 

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